Enquanto pedalava em direcção a Santiago, tinha aprendido tudo o que precisava, e tinha vivido tudo o que sonhava viver.Este é o meu diário, conciso nas palavras, mas preciso nos factos, porque acredito que são as palavras que devem servir os factos, não os factos que se hão-de sacrificar à emoção das palavras. O caminho de Santiago não se descreve. Vive-se.
Foi minha intenção a 3 dias de completar 30 anos de idade, viver em pleno séc. XXI a mesma experiência e o mesmo chamamento que tem feito caminhar ao longo de 1000 anos, milhões de pessoas de todo o mundo entre S.Jean Pied de Port e a Catedral de Santiago de Compostela durante aproximadamente 850 kms e entender que o extraordinário reside no Caminho das Pessoas Comuns.
Pretendo com esta experiência que foi sentida e vivida durante 13 dias de servir de recordação a todos os que viveram esta grande aventura, e dar a conhecer o caminho que se faz com o corpo e com a alma, num encontro único com a natureza e a espiritualidade. Assim, independentemente de onde estiverem, cada um com a sua pedalada e ao seu próprio ritmo poderá percorrer a Rota Jacobeia.
Tudo o que fica são dias recheados de momentos que se irão perpetuar eternamente no meu imaginário.
Lembrem-se: “A vida é feita de momentos, mas é acima de tudo feita da forma como os vivemos.”
Buen camiño.Ricardo Mendes
S.Apolónia – Hendaya 29Ago03
O comboio ia cheio de emigrantes, era final do mês de Agosto e final de um mês passado junto da família. Era altura de regressar a França.
A noite foi demasiado longa, a carruagem ia ficando lotada à medida que nos dirigíamos para norte, o espaço no compartimento era insuficiente para tantas mochilas e malas com alimentos típicos da região que os emigrantes faziam questão de levar para matar saudades da sua terra natal. O “meu produto” típico era uma grande caixa de cartão constantemente arrastada de um lado para o outro porque estava junto da porta de acesso, e que continha uma bicicleta amarrada num varão do átrio. Foi uma noite mal dormida, alternando entre o encostado aqui e ali. Havia pessoas que optavam por ficarem deitadas no corredor da carruagem, indiferentes ao movimento desenfreado daqueles que andavam de um lado para o outro como se andassem a passar o tempo. Este cenário mudou pela noite dentro ao entrarmos em território espanhol quando surge o revisor espanhol acompanhado de um segurança armado, confirmando os lugares um por um e mandando levantar todos os que estavam no corredor do comboio. Ali viu-se logo a diferença de acção entre as formas de agir destes dois profissionais dos Caminhos de Ferro.
As paisagens em Irun junto à fronteira são muito verdejantes, onde se vê de forma pronunciada as características das habitações desta região. Águas com grandes desníveis prontas a vencer as mais duras condições atmosféricas e sempre com estruturas em madeira.
Hendaya – Bayonne 30Ago03
O comboio chegou atrasado. À saída muita confusão para não se perder o TGV que de certeza não estava à nossa espera. As rodas concebidas para a caixa de cartão da bike resultavam na perfeição.
Bayone – S. Jean Pied de Port 30Ago03
O trem é regional e leva essencialmente caminheiros e um Bttista sozinho rumo ao desconhecido, que enquanto escreve estas linhas vai olhando paras nuvens lá fora e vai pensando como serão os Pirinéus? O tempo permitirá a 1ª etapa do percurso? Será que...? Apenas posso dizer com franqueza que o cenário não é animador já que aquelas montanhas ao fundo estão a fazer-me um nervoso miudinho.
S.Jean Pied de Port – Roncesvales 30Ago03
Distância - 27 km Média - 8 km/h Tempo pedalada – 3h25´
Cheguei a S.Jean eram já 15h00 pedi informações sobre aonde teria de dirigir-me, apesar de haver muita informação afixada sobre os peregrinos.
Os meus receios confirmavam-se. Estava a chover. Começo a montar a bike e perdi logo o power-link da corrente. Paciência, foram mais dois elos à vida. Será que as mudanças vão funcionar bem? Ainda dei umas voltas pela pequena vila francesa à procura da porta de S.Jacques que se situa dentro das muralhas para iniciar esta aventura. Em França reparei no carinho que tinham aos peregrinos quando diziam “Bon jornée”.
Fiquei preocupado quando o chefe da estação disse “Pirinéus non”, felizmente o casal que acolhia e encaminhava os peregrinos disse que era possível passar pelos trilhos em Btt. Mostraram-me fotografias de um local que tinha uma estátua de uma senhora Santa e onde deveria abandonar a estrada para entrar pelo caminho de terra batida. Agradeci e fiz-me ao Caminho. Comecei a pedalar em alcatrão com convicção, mas o desnível era cada vez maior e não era possível com a bike carregada, pelo menos para mim, vencer aquelas “paredes”. Apeei e resolvi empurrar a bike por aqueles cabeços acima. Vi umas placas apontarem em duas direcções opostas e umas delas estava a seguinte inscrição” Bad Weather” , escusado será dizer que fui por esse lado, porque afinal eram apenas uns chuviscos e eu estava na 1ª quinzena de Setembro. Se aquilo era mau tempo, o que seria na altura do general Inverno?
Há medida que subia em altitude, o nevoeiro ficava mais cerrado, o frio aumentava, assim como o receio de ficar por ali caso ficasse noite de repente. É preciso não esquecer das horas, elas iam passando e por isso a pedalada era constante e o andamento muito vivo, não conseguia afastar da ideia as palavras da minha esposa Ariete, “não acho muito boa ideia fazeres os Pirinéus sozinho”. Não via nada nem ninguém a uma distância de 5 mts, que pena não ter a visão daquelas paisagens que deveriam ser fascinantes. Ansiava por ver a imagem da Senhora Santa a qualquer momento, nunca a cheguei a ver, duvidei por diversas vezes se aquele era o caminho correcto, ou se estava algures nos Pirinéus. As dúvidas dissiparam-se ao ver uma “flechila amarilha”, e um abrigo de montanha ( ainda hesitei e pensei que poderia ali pernoitar com o belo saco cama militar), curioso ver uns animais parecidos com as ovelhas mas com muito mais lã. Porque seria? Alto, quem vem lá? Parecia um vulto humano. Era um peregrino. Agora sei a felicidade que tinham os marinheiros portugueses ao avistarem terra, depois de longos períodos no mar. Não estava só, podia agora dar mais descanso à máquina que apesar do frio no local estava quase em Red Line.
Já no topo encontrei uma fonte de água junto de uma enorme pedra trabalhada onde se via Santiago a 765 Kms.
A chegada final a Roncesvales faz-se por um imenso bosque com enormes descidas rodeadas de arvoredo muito verdejante que acabam precisamente em frente a uma Igreja muito bonita. Dirigi-me perto das 18h30 ao albergue que estava completo, e só havia lugar no chão em contentores alguns metros mais adiante. Juntamente com os 3 espanhóis que havia conhecido, o Paco, o Dominique e o Lázaro aceitámos ficar a troco de 3 € uma vez que eu não estava em condições de andar mais alguns Kms para ir até ao albergue mais próximo. Como vêem, foi este o meu primeiro contacto com os albergues em território espanhol.
Roncesvales, não é grande e não tem a oferta necessária para a procura existente, é praticamente ali que todos os espanhóis começam o Caminho Francês. Vi-me obrigado a comer um bocadilho de tortilha e beber um café com leche para enganar a fome. Comi mal e paguei caro (5€). Por acaso, num dos albergues serviam o menu do peregrino por 7€, composto por macarrão, mas aquela hora já não aceitavam mais reservas.
No contentor com aquecedor tentei secar alguma da roupa que trazia enquanto o Paco e o Dominique fumavam ganzas como gente grande.
Roncesvales – Puente La Reina 31Ago03
Distância - 72 km Média - 12 km/h Tempo pedalada – 6h30´
Enquanto os espanhóis comem no bar atafulhado de gente, eu aproveito para comer os meus corn-flakes, uma coisa é certa, venho carregado, mas a diferença vê-se. Dois deles disseram comentaram que passaram frio durante a noite, só depois reparei que o sacos-cama são 3 vezes mais pequenos que o meu. Nem quero imaginar o peso.
A passagem por Pamplona resumiu-se a passar por aquelas ruas onde fazem a famosa largada de touros e almoçar numa tasca onde o menu era 12€ com direito a 3 pratos, sobremesa, pão e vinho. Depois de uma abastada refeição, saímos perto das 16h00 em direcção ao próximo destino. Não estava nos meus planos fazer aquele tipo de extravagâncias, nem perder tanto tempo.
O Paco e o Dominique ficaram-se pela povoação imediatamente a seguir, o que não me admira, depois daquela refeição qualquer um ficaria sem vontade de pedalar, o Lázaro e eu conhecedores desse facto, apenas comemos o prato de salada e o de carne e continuámos a pedalar rumo a Puente La Reina. O alcatrão só nos abandona quando começamos a subir de forma íngreme com muitas pedras rolantes para o Monte do Perdão ( no topo pode-se observar uma figuras metálicas em fila), e uma roulote a vender bebidas. Com aquele vento gelado bem apetecia um cacau quentinho, olhei para o Lázaro e decidimos começar a descer. A descida não era muito técnica, mas tinha imensas pedras soltas que obrigavam andar constantemente de um lado para o outro e a fazer um grande esforço a nível de pulsos. Foi aqui que nos cruzámos com mais dois espanhóis que se queixavam da dureza do terreno. Posso dizer que os meus Magura Clara juntamente com a suspensão portaram-se à altura do acontecimento.
Começou a chover precisamente na altura que chegámos ao Refúgio dos Padres Reparadores, desta safámo-nos. O albergue tem boa qualidade, com um espaço no quintal com telheiro próprio para bikes , estendal, duches com água quente, espaços divididos em quartos para dar mais privacidade, um computador com internet , enfim, não tinha nada a ver com aquilo que tive em Roncesvales. O donativo neste albergue era de 4€.
Antes de chegar a este albergue reparei num em Obanos que parecia acolhedor e tinha serviço de refeições. Perto da hora de jantar chegaram os outros dois espanhóis. Esperámos por eles e lá fomos a um local previamente recomendado, há vezes é bom ter um elemento que fale a língua local pois assim é mais fácil comunicar e saber dos melhores locais. Eu digo às vezes porque desta vez correu mal, o restaurante era um estabelecimento que estava aberto até às 04h00 da madrugada, e o aspecto era mais parecido com um Pub, logo o serviço era pratos combinados de batatas fritas, chuletas de ternera, ovos e salsichas. Não tinha nada a ver com a alimentação necessária para um peregrino. O preço era a condizer com o serviço. Mau!!! Lembrei-me por diversas vezes dos panfletos de Pasta e Pizzas afixados no albergue.
Puente La Reina – Logroño 01Set03
Distância - 77 km Média - 12 km/h Tempo pedalada – 6h10´Acordámos tarde, hoje é um dia diferente, faço 30 anos de idade por isso à que levar as coisas com calma e descontracção.
O caminho era de terra batida mas havia diversos desvios devido a obras, que obrigavam a valentes subidas por pequenos trilhos até à povoação de Cirauqui. Houve quem optasse pela estrada de alcatrão e apesar de terem andamentos mais leves, chegavam aos destinos ao mesmo tempo que nós.
Só em Estella consegui levantar mais algum dinheiro nos cajeros automáticos. A gastar aquele ritmo ficaria rapidamente sem os 200€ que levara de Portugal e ainda ia só no 3º dia de Caminho.
Estella é uma cidade com um pouco de tudo, à que estar atento às indicações do Caminho, que podem surgir num poste de electricidade, num lancil do passeio, no alcatrão, na parte de trás de uma árvore, num sinal de trânsito e em muitos outros locais que a seu tempo vão aparecendo. A saída de Estella faz-se junto a um bomba da gasolina.
A direcção escolhida foi Irache, uma boa opção escolhida pelos meus amigos guias, aos quais ia tentando sacar o máximo de informação sobre albergues, locais de paragem obrigatória ( eles têm livros bastante completos
sobre o Caminho Francês), neste caso vimos as famosas Bodegas de vinho Irache, e provarmos água e vinho das duas torneiras existentes no local. Até eu que não sou apreciador de vinho tinto, segui aquilo que estava escrito na placa “....se a Santiago queres chegar, deste vinho tens de provar...”. Alguns metros mais à frente, deparámo-nos com umas placas de madeira indicando dois caminhos à escolha do freguês. E agora? Por indicação de um senhor que passou, seguimos o da direita por ser segundo palavras dele “mais fácil”. Se isto é mais fácil, então não quero ver o outro, pensei.
Desde Villamayor, aproveitei para lavar o suor numa fonte medieval onde a água ia correndo para um grande tanque de pedra permanecendo fresca devido à construção feita para abrigar o peregrino das intempéries. Os caminhos são largos e rolantes com paisagens sem sombras a perder de vista.
Parámos para almoçar em Los Arcos, os espanhóis têm mania do restaurante, eu pessoalmente aprendi a lição, parei numa “tienda” para comprar “verdadeira comida”. Posso dizer que comi melhor que qualquer um deles (em termos energéticos e de nutrientes), despachei-me mais cedo, gastei menos e ainda tinha comida para toda a tarde. Eu levava algumas barras energéticas, mas à razão de 2 por dia não chegavam até ao fim, por isso decidi optar pela barra só em situações críticas e racioná-las.
Ainda não é hoje que vou chegar cedo ao albergue. É melhor levantar cedo, para também chegar cedo porque assim temos mais tempo para conversar, lavar roupa e preparar tudo para o dia seguinte. O meu objectivo não é andar depressa, porque o Caminho é que nos enriquece há medida que se vai fazendo. O Caminho é muito mais do que um roteiro gastronómico; existem as Catedrais, Igrejas e todo um conjunto arquitectónico que é importante visitar. Até à data, ora porque estão fechadas, ora por irmos andando, que sinto estar a perder muitos locais que possivelmente não voltarei a visitar.
A conclusão a que chego é que, para a maioria dos Bttistas espanhóis existe de tudo à venda, e então não se preocupam em levar muita coisa com eles. Por exemplo, eles levam apenas um bidon de água que iam enchendo nas diversas fontes do Caminho, eu feito teimoso, era CamelBag às costas com pelo menos 1.5 L de água, sem contar com o grupo Sram e muito, muito mais. Noto particularmente nas subidas o excesso de carga que trago comigo, especialmente às costas ( o Diário de um Mago ainda não tinha sido aberto para leitura, ao invés disso fazia algum peso extra). Isto não significa que ficasse para trás, não me posso esquecer que a minha Btt está bem equipada relativamente à maioria, se fosse agora havia pormenores na carga que iria substituir. O saco-cama tem de ser mais pequeno e mais leve, trocar a toalha de banho pela de rosto, uns ténis que dessem para a bike e para andar na rua, ou então uns chinelos que dessem para o banho e para a rua, menos muda de roupa civil, um fogão portátil para aquecer as latas de conserva, a roupa para proteger do frio à noite e durante o dia pode ser um corta-vento discreto da bike. Não compensa levar calções de Inverno, é preferível as perneiras que apesar de estarem sempre a cair, vão dando para aquecer as canelas. Outra boa opção são os calções discretos almofadados. A ideia é o 2 em 1 em tudo o que se transporta.
Entre Sansol e Viana não encontrei fontes, o resultado foi ficar sem água devido à mania de querer ficar aliviado de peso e então...Rapidamente a solução passou por um iogurte líquido. Os trilhos são transitáveis, mas têm algumas subidas e descidas muito técnicas antes e depois de Torres del Rio. Foi perto deste local que tive contacto com a equipa da Ciclonatur, mais precisamente o senhor Malvar acompanhado de mais um betetista sem qualquer tipo de alforges. Ao passar por nós ficou surpreso quando disse “Bom dia senhor Malvar”, fiquei a saber que eles não estavam a reconhecer os Pirinéus (já tinha visto a carrinha de apoio por duas vezes), estavam também a fazer o Caminho.
Após Viana pode-se respirar de alívio porque os terrenos e o alcatrão fazem-se bem. Não esquecer que antes de entrar em Logroño, está a senhora Felisa que tem um carimbo para Credencial que diz “Hijos, Água e Amor “
Foi uma etapa bastante cansativa, senti o cansaço de tanto tempo para chegar ao albergue que foi perto das 18h45(HE), não era as pernas que me doíam , era o sono estava a começar a tomar conta de mim.
O albergue (donativo de 3€) tem uma qualidade irrepreensível com cozinha, máquinas de lavar e secar roupa, internet (máx.15 min. com donativo), o nosso grupo ficou instalado no último piso do edifício junto das águas furtadas com tectos todos forrados a madeira e as camas afastadas cerca de um palmo. A minha cama tinha uma particularidade, a cabeceira da cama estava distanciada 1 palmo de uma asna; obrigou-me a dormir com os pés para a cabeça da bonita rapariga que estava logo ali. Seria aquilo a minha prenda de anos? Tudo com o devido respeito como é óbvio. A Ariete é insubstituível. Como estava algures “O turista exige, o peregrino agradece.”
O jantar estava uma delícia, o espaguete com carne picada feita pelo Victo era de qualidade e em quantidade suficiente para alimentar 7 pessoas famintas, enfim, são de momentos como este que a vida é feita.
Saímos para ver o movimento nocturno, apreciei as fachadas e ruas com muitas tiendas pessoas, reparei mais uma vez que a cultura de nuestros hermanos é diferente da nossa. Imaginem o que é fazerem fila para comerem cogumelos assados!!! Não é só isso, qualquer taberna vende petiscos como chouriço assado, orelha, o que parece ser bastante do seu agrado, para não falar do copo de vinho sempre presente.
Enquanto os espanhóis fumam ganzas na casa de banho (isto deve ser moda), eu vou deitar-me. Lembram-se da senhora ao lado da minha cama? Pois é, já estava lá e tive que enfiar-me dentro do saco-cama de calças e sweat.
Logroño – Atapuerca 02Set03
Distância - 111 km Média - 13 km/h Tempo pedalada – 8h34´Como agora estou a passar a limpo os registos diários do Caminho, posso dizer que esta não era a etapa programada como irão ver mais adiante.
Desta vez optei por sair sozinho, dizendo aos espanhóis que iria até S.Juan de Ortega comer uma bela sopa de alho tal como eles haviam dito.
O dia começou cedo 06.30 (HE), segui para Navarrete tendo particular atenção aos carros na cidade de Logroño e às flechas amarelas, o caminho é rolante, bom para relaxar as pernas. À saída de Logroño passa-se por um bonito parque, onde estava um senhor que já foi peregrino com umas enormes barbas; eu já tinha visto aquela imagem em fotografias nos albergues com o enorme cajado de madeira e as suas túnicas. A presença fazia deste senhor alguém especial que tinha vivido a mesma experiência que aqueles peregrinos, e estava ali oferecer a sua hospitalidade dando fruta, bolachas e, inclusive um amuleto (uma avelã com inscrição 2003), para nos proteger juntamente com a concha de Santiago.
A caminho de Nájera passa-se por Navarrete, fim da zona Navarra, os trilhos são demasiado barrentos, bons para se fazer em tempo seco, mas a manhã tinha começado molhada ficando os terrenos impraticáveis para a prática da modalidade. Foi aqui que vi a qualidade do material de btt, nunca tinha visto tanta lama na minha bike. Imaginem que os elos da corrente não se viam, os chupões eram uma constante e só pensava que a corrente precisava de ser substituída. Aquilo que temia, aconteceu. Fiquei sem pastilhas no travão da frente. Não foi nada que não estivesse à espera, em S.Jean a pastilha estava caída na caixa e vi que o ferodo era pouco, agora é ferro contra ferro. Também não foi esquecimento, mas sim querer adiar e não comprar as pastilhas na Bike Lab.
Após aquela tortura é altura de lavar a transmissão numa obra que estava a decorrer em Nájera e ir ao supermercado. Engraçado, cada vez que faço compras é sempre 4€. Porque será? Eles têm sempre os mesmos preços, ou sou eu que compro sempre o mesmo?
Para aquecer nada melhor que um café com leche servido numa chávena tipo meia de leite de aspecto mais cremoso que o nosso galão. Os cafés têm um espaço com uma decoração muito peculiar sendo agradáveis ao primeiro contacto.
Em Azofra, o albergue um anexo à Igreja está em fraco estado de conservação mas é acolhedor e tem uma cozinha bem apetrechada. Aqui os restaurantes oferecem bons menus del Peregrino e os trilhos são rolantes e planos
A saga da lama voltou até S. Domingo de La Calzada, tenho a certeza que as aqueles caminhos são bons para rolar, não pode é chover nem antes, nem depois.
Viloria de Rioja, cuna de St. Domingo de La Calzada, é o berço do Santo que dedicou toda a sua vida e bens aos peregrinos.
Até VillaFranca Montes de Oca, as paisagens de cultura de trigo e cevada são semelhantes ao nosso Alentejo, com um pouco mais de inclinação, o piso alterna entre o macadame e algumas pedras rolantes. O trajecto é feito paralelamente à N120 direcção Burgos durante grande parte do percurso. Encontrei uma espécie de Betetistas que iam fazer por estrada o trajecto entre Logroño e Burgos (124 km). Ela é uma constante e pode servir como auxiliar para aqueles que pretendam ganhar tempo.
Aproveito para descansar e comer um bocado de pão com leite condensado, porque já sabia que era neste último troço que iria começar a subir com alguma inclinação. O albergue de S. Juan estava situado num bosque enorme, foi magnífico seguir por caminhos ladeados de tanta árvore e sentir aquele cheiro tão característico da mãe natureza. Finda a subida já no topo, o que na gíria militar se diz crista topográfica, aproveitei para rolar com andamentos perto dos 33km/h, o único senão foi sempre a incerteza se estava a seguir a direcção correcta. De vez em quando lá aparecia uma seta feita de pedras no solo, aí já podia dizer que era sempre a direito, o pior eram as descidas, o sozinho travão traseiro tinha de se aguentar.
Tinha cometido a loucura de ter planeado para esta etapa 100 km, apenas para comer uma bela sopa de alho no albergue de S.Juan, que por estar com tanta gente não a iriam servir. Duplo azar, nem cama, nem jantar, apenas um café para comer bocadilhos. Tive de optar, e apesar de estar cansado pedalei mais 6 km por um caminho de terra batida sempre a descer.
Atapuerca é uma vila pacata, na casa de turismo rural “Papasol”, fizeram-me o especial favor de arranjarem um sofá pela módica quantia de 5€.Nesta região safou-se o restaurante “Palomar”, por 8€ comi 2 pratos, água pão e sobremesa, e a companhia de um grupo de brasileiros super animados e simpáticos, ficando no ar a promessa de uma visita quando for ao Brasil.. No final da noite, o sítio onde estava o sofá revelou-se o melhor local, ou seja, aquele estabelecimento apenas tinha um quarto enorme onde estavam todos os potenciais roncadores e um pequeno hall onde eu estava.
A noite estava gelada, bem como as duas divisões da casa Papasol, valeu-me a salamandra a 2 metros do meu sofá-cama. Uma rapariga (jeitosa ou não, depende da vossa imaginação), decidiu e bem dormir ali mesmo ao lado. Se fosse cavalheiro (o que não era), dava-lhe o “meu” sofá. Se fosse solteiro ( o que não sou), dormia comigo. Mas como era peregrino e sou bom rapaz, preparei-lhe um bom camalho bem juntinho à salamandra. Ela ainda teve a ousadia de perguntar-me se roncava, isto em espanhol como é óbvio. Já no albergue de Puente La Reina tinha acontecido algo semelhante, o grupo de espanhóis tinha arranjado um quarto privado para betetistas não roncadores, quando uma “intrusa” nos perguntou o mesmo que esta ( as mulheres são mto desconfiadas). No fim, ressonava que
se fartava e nem abanando a cama ela acordava. Benditos tampões para os ouvidos que trazia junto no kit de 1 socorros. Isto é que é uma verdadeira emergência.
Atapuerca - Castrojeriz 03Set03
Distância - 68 km Média - 13 km/h Tempo pedalada – 5h00
O dia começou cedo, eram 05h00(HE), e já estavam alguns peregrinos a tomar o pequeno almoço no mesmo espaço que coabitava. Ainda estava escuro, era melhor não me aventurar por caminhos desconhecidos. Rapidamente começou a chover, trovejava e fazia muito vento e relâmpagos. Que bela manhã para se iniciar o estranho Caminho de Santiago, que por acaso é o Caminho das pessoas comuns.
Saiu toda a gente, outro pormenor interessante é que os peregrinos utilizam os utensílios existentes, servem-se do material existente no local, mas também deixam comida para os próximos. Isto faz parte do espírito do Caminho. Ainda servi-me do leite e de um bocado de bolo seco que havia sobrado, pelo menos era melhor que leite condensado misturado com água.
Após “desayunar”, a sobremesa era “chuva com vento relampejado” e o digestivo era uma bela subida com terra batida e pedras incrustadas difíceis de engolir porque estavam molhadas e escorregavam. Isto era uma refeição digna de um betetista puro e exigente.
De seguida seguiu-se uma via de comunicação de terra batida à boa maneira da tropa, bem compactada e que se estivesse alcatroada mais parecia uma Autopista. Pode ser que para o ano já esteja melhor de se fazer. Aquilo parecia um “inferno”, a lama e o trigo seco formavam uma argamassa tão forte e coesa que não se viam os elos da corrente e onde esta mais parecia uma guilhotina a cortar nacos de lama. Como não à bela sem senão, quando penso “é melhor parar se não...”, o drop-out partiu-se, e aquilo que parecia fácil rapidamente se tornou numa verdadeira aventura, senão vejamos: o desviador não saía do drop-out porque ao fazer tanta força a porca ficou moída, a solução passou por abrir a corrente, colocá-lo cá fora e tentar novamente. Consegui, mas agora já tinha tirado o cabo do desviador e de certeza que não iria colocar o mesmo cabo porque estava a desfiar-se e o sítio onde entra no desviador Sram é à conta. Isto é que vai uma açorda... Ainda por cima perdi a anilha que prende o cabo, e sem isso a porca não prende o cabo. Um militar português é como um canivete suíço, há que desenrascar. Qual é a coisa qual é ela que na btt se parece mais com uma anilha e não faz falta? Desistem. Não sabem? É aquela peça redonda que prende a câmara de ar ao aro. Surpreendente, não é? Mas a festa não ficou por aqui, depois de mais de uma hora passada, eu tremia como varas verdes, estava todo encharcado levando com o vento e chuva pelas costas. È preciso não esquecer que eu estava num ponto de cota muito elevado, havendo apenas pedras e vegetação rasteira que não me protegiam das condições atmosféricas.
Começo a empurrar a bike, mas as rodas deixavam de fazer o seu movimento curvilíneo normal, para começarem a fazer um “movimento rectilíneo uniformemente deslizando”. Com aquela carga toda mais parecia estar a empurrar uma carroça, vontade não me faltou para mandar a bike às urtigas. Ali naquele local o pau era o meu melhor amigo. Eu explico. Assim que a empurrava um metro, limpava os espaços entre a suspensão e a roda dianteira, e entre o wishbone e a roda traseira, foi assim até Cardeñuela.
Já na povoação, pedi a um senhor idoso montado na sua ginga um alicate para cortar o cabo de aço de maneira a ficar direito e uma mangueira para lavar a bike. Os dois pedidos foram imediatamente satisfeitos pelo senhor.
Felizmente que até Burgos era sempre estrada a descer e plana, ou se preferirem, carretera, o que para mim foi uma dádiva; só tinha 2 relações permitindo-me ir calmamente até uma tenda de bici.
No talleur do Garcia, comprei 2 cabos (5.50 €) puxa, não admirem que no quadro afixado estivesse 6€ de mão de obra para colocar um cabo. Perguntei se tinham pastilhas para Magura (lembram-se?).Resposta negativa, deram-me a indicação de outro talleur e até me fizeram um desenho. Paguei os cabos e fui até tienda “Movimiento” recomendada pelo senhor desta loja. Havia pastilhas. Comprei 2 caixas, desta vez resolvi por excesso não fosse o diabo tecê-las, quando olhei para o preço tinham marcado 20€ e 15€. Perguntei o que se passava? Respondeu-me que o preço era o de 15€. Decidi levar as 2 caixas mais uma anilha para o Sram. Foi tudo 40 €. Estes espanhóis pensam que o peregrinos têm falta de oxigénio no cérebro, ou quê? Eles quando podem “metem a mão”, ou então a diferença era o preço da anilha. Ainda me perguntou se queria que ele montasse o cabo e se não metia massa nos cabos. O “gajo” é maluco!!! Pensa que sou rico, ou que nasci ontem? Disse que eu ainda morria, a verdade foi o que o senhor idoso da pequena povoação de Cardeñuela disse “ os portugueses são rijos”. Eu vejo muitos espanhóis de bike, mas uma coisa é certa, ou eu, sou muito porco e só passo por sítios todos lamacentos, ou eles metem-se à estrada com muita facilidade ( disso não tenho dúvidas).
Apesar de tanto tempo perdido devido avarias, decidi seguir até Castrojeriz. Em boa hora o fiz, porque o caminho é rolante e a partir de Hontanas é sempre estrada. Boa etapa para relaxar.
A vila é pequena, mas tem de tudo. Um excelente supermercado, um albergue construído de raíz para o efeito, confortável e com bom aspecto (só lhe falta a cozinha). No ar estava sempre um cheirinho a incenso e a música ambiente era a condizer, o donativo é ao critério do peregrino. Mais uma vez, a vida do peregrino não é só orar, há também que lavar a roupa e pô-la a secar. Aqui encontra-se variadíssimos restaurantes com “menu del Peregrino” (melhor relação qualidade/preço).
As tardes soalheiras que se prolongam até mais das 20h00 com luz, contrastam com as manhãs chuvosas e nubladas, em que para aquecer nada melhor que um café com leche, sempre a 1 €, bem ao estilo espanhol.
Sinto que hoje apanhei demasiado sol, estou cansado, mas foi o dia que cheguei mais cedo ao albergue, cerca da 18h00 (HE). Os espanhóis que me acompanhavam nas etapas anteriores faziam mais um percurso gastronómico( com paragens de 2 horas em restaurantes), do que cultural. Eu prefiro comer algo energético ao almoço e depois ao jantar comer bem, sem nunca descurar o valor cultural dos povos e vilas por onde passo. Visitei entre muitas outras a Catedral de Burgos. Formidável, apesar de estar em obras no seu interior, deu para contemplar todo o seu esplendor e magnitude.
É curioso frisar que a N120 que passa em Logroño vai pelo menos até Burgos, mesmo no meio dos bosques e no cimo das montanhas antes de S.Juan de Ortega é possível sentir-se que algumas boas dezenas de metros ao nosso lado está uma estrada nacional.
Castrojeriz – Sahagun 04Set03
Distância - 88 km Média - 17 km/h Tempo pedalada – 5h10Uma noite reconfortante e um acordar suave às 07.30 (HE). Saí do albergue perto das 08h30, não tinha pressa porque sabia que o caminho era plano. Aproveitei para dar um toque na btt limpado-a do pó e lama acumulada. A pedaleira Rotor foi a única a beneficiar desta sujidade uma vez que deixou de fazer um chilrar irritante depois de babar massa com fartura.
Pois bem, voltando ao caminho, este é penoso ao sair do albergue começando bem cedo a trepar alta montanha com pedras à mistura. Durante a descida aproveitei para ver um albergue simpático que dava pelo nome de Hospital Dos Peregrinos. Depois disso o terreno é rolante, com o piso duro obrigando a suspensão dianteira a ir em permanente trabalho.
Antes de Fromista, existe um local que outrora fora um albergue e que agora é um lugar de repouso para peregrinos. Imaginem um espaço amplo com inscrição “ BUEN CAMINO” na entrada, com inúmeras máquinas, umas de comida, de bebida, de produtos de farmácia e um enorme pomar onde tive a oportunidade de apanhar umas maçãs golden do chão (são as mais maduras), para mais tarde poder trincá-las. Troquei informações com o responsável daquele local sobre os prós e os contra da bike e andar a pé. Ele disse-me que naquelas alturas, os pés já vão tão massacrados, que eles não olham para outro lado que não seja o chão. Por isso não é só connosco, malta da roda grossa, que por vezes não aproveita toda a paisagem envolvente porque tem que olhar para o piso onde trilham as rodas.
Aproveitei em Fromista para pedir mais uma credencial, é que desta forma já posso coleccionar mais alguns carimbos.
Às 12h00(HP), já à saída de Carrion de los Condes, almocei numa bomba de gasolina da Cepsa debaixo de um pequeno tecto com o peito de granito da janela a servir de mesa a mim e a um senhor belga. A chuva continuava a cair, tentei inutilmente lavar a bike numa torneira ali existente, não por falta de habilidade mas porque o indivíduo das bombas disse para não a lavar ali. Expliquei-lhe que era só a transmissão para que funcionasse melhor. Ele voltou a insistir que mais à frente o caminho era de terra e que iria sujá-la novamente. Se a lógica fosse essa, porque razão toma ele banho se amanhã está sujo outra vez? Disse-lhe de forma ríspida “Que água te an bom probecho” , ainda antes de me ir embora agradeci a sua simpatia e avisei-o que assim que chegasse a Portugal iria relatar o sucedido para a Cepsa. Em mais de 400 kms de caminhos, 6 dias passados na companhia de tanta gente com diferentes línguas e culturas, nenhum me pareceu tão frio como aquele indivíduo. Que diferença lhe ia fazer um bocado de terra num local que estava completamente encharcado? Com aquela “cara de anormal” disse-me para lavar a btt no rio mais à frente. É preciso ser mesmo estúpido. O facto de não vir vestido de fato e gravata, nem vir montado num carro de luxo, torna-me um cidadão de 2ª?
Após este momento desagradável, entro mais à frente em terra batida.Este trajecto durou uma eternidade , porque o piso é duríssimo com pedras massacrando muito as costas e o traseiro, as paisagens são um bocado monótonas. Anda-se um bocado em alcatrão, e rapidamente passa-se a um trilho sempre paralelo à N120, afastando-se por breves momentos para ir de encontro a um local religioso retomando passados poucos metros à sua forma original.
Apesar de estar cansado e até aquela altura ter mais de 60 kms percorridos, aquela visão do alcatrão nunca me impressionou. No entanto há betetistas que queimam pneu naquele piso, acreditem que esse não é o verdadeiro espírito do caminho, nem o espírito do biker, para o qual a pedra e a terra são o seu consolo...
Já em Sahagun volto a entrar numa loja de bikes e a gastar dinheiro numa cadena, carrego mais sobressalentes agora do que no início do Caminho. O problema da corrente vir a dar estalos, podia ser de estar gasta (apesar de não ter 1000kms) ou do carreto(pinhon) que apresentava uma folga considerável no cepo. Estava era na altura de trocar de rodas.
O albergue é bom, a cozinha é pequena e o fogão eléctrico demorou o dobro daquilo que vinha anunciado na embalagem para cozinhar uns belos tortelinis. O espaço é antiquíssimo, aproveitaram o enorme pé direito do mosteiro para a meio fazerem um piso completamente em madeira, com estruturas divisórias para tomar banho.
Vi agora o nome Menendez num cartaz à entrada, só por curiosidade o Lázaro de Tenerife que me acompanhou até Logroño tinha como apelido Mendez. Eu tinha um professor de matemática na E.S.E que estava sempre a dizer” señor Mendez ou señor Menendez, venha ao quadro”. Agora compreendo a toponímica do meu nome.
Sahagun – San Martin del Camino 05Set03
Distância - 74 km Média - 17 km/h Tempo pedalada – 4h30Ontem aproveitei que cheguei cedo para afinar e lavar a bike numa estação de serviço.Este serviço custava-me 1€ para lavar a bike a alta pressão, então pensei: Rasgo uma bragas(cuecas), utilizo a lata que está ali ao meu dispor e , voilá!!! Bike Lavada com amor e carinho incluindo carretos e corrente. O barulho característico na zona da corrente hoje não se ouvia, porque reparei que o problema estava num pino que estava quase a soltar-se.
A tipologia do terreno é basicamente extensas planícies tipo “Alentejo”, com longas fieiras de plátanos estrategicamente colocados à beira do caminho para dar algum abrigo aos peregrinos. Note-se que paralelo a este anda a N601. Vi muitos ciclistas, sim porque os que andam na estrada são ciclistas e não betetistas, eu pessoalmente prefiro ouvir o “ranger” das pedras debaixo das minhas rodas; o caminho é tão rolante e plano que cheguei a Leon em pouco mais de 2 horas com uma média de 18.7.Depois de visitar o albergue situado junto da margem do rio Bernesca, e observar que este era enorme edifício decidi por diversos factores continuar a peregrinação até uma vila ou povo mais acolhedor. De facto, Leon é uma cidade enorme com grandes avenidas para evitar tanta confusão. Quanto à Catedral, estou num pátio em frente da mesma e apenas sinto o quanto sou pequeno perante esta magnífica obra de arquitectura. Se por fora impressiona muita gente, o seu interior com as suas pequenas capelas e vitrais impressiona muito mais. È ponto obrigatório de visita de turistas e era necessário praticamente uma manhã para olhar cada pormenor que torna esta Catedral das mais bonitas que alguma vez vi. Encontrei um senhor na imensa baixa de Leon que disse “ Eu gosto mais desta Catedral do que da Catedral de Notre Dame em França”, isto é suspeito porque ele era nativo daquela região.
Aproveito estes pequenos momentos de lazer para enviar uns postais para o Padre da minha paróquia e para a equipa da secção onde trabalho. O local onde os coloco chama-se bujón (marco correio).
Saí de Leon pela ponte junto da Plaza de San Marcos onde minutos antes estive almoçar junto a um banco de jardim. O que pensariam aquelas pessoas ao olharem para mim e verem-me montar a sala de refeições ali mesmo junto deles? A partir desta passagem sobre o rio é necessário ter atenção à sinalização pois é fácil enganarmo-nos, isto porque atravessamos pequenas povoações em alcatrão e só tive a certeza que estava na senda correcta muitos kms mais adiante onde aparece uma flecha amarela à esquerda, passando La Virgen del Camino. A água da fonte de S. Miguel del Camino não sabe bem. Alguns metros mais adiante, em Villadangos del Páramo voltei cruzar-me com os 2 rapazes da pasta de Logroño, eles já se tinham perdido e enquanto comíamos um doce típico de Astorga (Mérles) trocarmos mais algumas informações, onde fiquei a saber que o albergue de Bercianos era bom e ainda serviam jantar e pequeno-almoço. O donativo era livre. Mais uma mensagem vista ao longo do Caminho desta feita numa fonte: “Calma tu sed en nuestra fonte, sient el camino y recurdalo vivo”.
Depois de atravessar um lindo parque e percorrido uns bons troços planos e rolantes, eis-me em San Martin del Camino. Acabei por entrar no edifício que outrora fora uma escola e verifiquei as excepcionais condições que tinha para oferecer, ainda para mais quando à entrada uma jovem alemã me diz “Hola”. Disse-me que não havia ninguém, apesar deste albergue ter inúmeros beliches todos com cobertor, uma excelente cozinha bem equipada e uns balneários a condizer. Enfim estava tudo reunido para ali ficar instalado, mas como não há bela sem senão, quando vou ao supermercado qual não é o meu espanto ao verificar que tudo está fechado. Depois de entrar nos 2 únicos bares da vila, apenas a troco de um espanhol já bastante treinado é que um deles nos ia servir a muito custo um pedaço de tortilha.Esperem lá, esqueci-me de dizer que não era uma alemã. Eram duas, a outra “estava a lavar-se por baixo”, e por azar até eram jeitosas, mas não se esqueçam que estamos a fazer um Caminho Santo e eu sou casado... Combinei a hora e lá fomos os três “señar” um bocado de pão com uma omelete (será isto a tal tortilha?). Aproveitei que o jantar foi fraco e cozinhei um resto de massa que estava na cozinha.. Meus amigos, aqui é assim, o que está é para te servir a ti e a quem passa. “Leva o que quiseres, deixa o que podes”, é este o espírito. Hoje deu para mim, ontem deixei uma embalagem de spaguethi à bolonhesa para alguém em Sahagun.A razão de tudo isto eram os 3 dias de festa na aldeia, em que tudo parava para ver a banda passar.
Sabem qual é para mim a bebida oficial do caminho de Santiago? O café com leite, servido depois de muitos kms percorridos, para aquecer o corpo e a mente. Sempre pela módica quantia de 1€ (moeda oficial do café com leche).
San Martin del Camino – Ponferrada 06Set03
Distância - 82 km Média – 13,7 km/h Tempo pedalada – 6h00O albergue era frio (percebem agora para que servia o cobertor?), ainda por cima acordei às 01h00 da madrugada, não com o ronco das alemãs mas sim com os foguetes lançados atrás da parede a 2 metros de mim. Não havia supressores de som que aguentassem.
De manhã não havia o alvoroço típico dos outro albergues, acordámos praticamente ao mesmo tempo, sem pressas e fui eu o primeiro a fazer-me ao Caminho.
Até Astorga pode-se contar com o terreno de terra batida sem grande oscilações levando-se cerca de 1h30 para aqui chegar. Aqui à semelhança de Leon vale a pena “perder” algum tempo para visitar tudo aquilo que tem para oferecer, o museu do chocolate o palácio de Ghaudi inclusive e provar as típicas mantequalhas; parecidas com as nossas madalenas, mas que não sabem a nada.
Ao planear os locais de passagem apenas pela altimetria, não me pude aperceber de determinados pormenores muito importantes como sejam chegar a uma boa hora para que se possam visitar os monumentos sem correr o risco de estarem fechados. No entanto se optarmos por ficar “albergados” em grandes cidades, perdemos a hospitalidade e aconchego que é próprio das pequenas povoações em redor.
Passei por Rabanal del Camino atravessando alcatrão de fraca qualidade, que até agarrava a descer. Fiz uma opção errada de não ter parado no pequena superfície comercial logo à entrada da vila e almoçado por ali, isto porque, não se avizinhava mais nada num raio mais próximo além do sol e da inexistência de sombras. Por estas razões não de deve optar por ficar em Rabanal del Camino. Já à saída cruzei a estrada de alcatrão e segundo os meus books, não me parece haver nem água, nem sombras, nem vivalma a não ser os peregrinos. As paisagens começam novamente a ser verdejantes com algumas montanhas à mistura.
Amigos, até agora tem sido uma aventura e uma experiência fora de série, mesmo para quem viaja sozinho fisicamente, mas unido espiritualmente a algo divino demasiado forte para conseguir ser descrito. “Todos os caminhos são mágicos se nos conduzirem aos nossos sonhos”.
Depois da fonte no monte à saída de Rabanal, o pequeno caminho de terra leva-me até à estrada para começar a subir de forma gradual até Foncebadón, onde parei para visitar uma meson medieval extremamente bem decorada com música ambiente medieval e empregados vestidos a rigor. Serviam o menu do peregrino por apenas 7 €, apenas cunhei a credencial e continuei a subir pelo alcatrão até que olho para trás e tenho a sensação que não podia estar a ir bem. Já noutras alturas tinha tido dúvidas se estava no caminho correcto, mas agora era diferente, eu tive pela primeira vez a sensação de estar enganado. Há já muito tempo que não via nenhuma seta amarela. Voltei para trás até junto do refúgio que ali existia, e encontrei nas traseiras do meson medieval aquilo que procurava.
Até Cruz de Hierro é sempre a subir por veredas incrustadas na montanha, o terreno é xistoso, por isso atenção aos pneus. Desde aqui podem observar-se grandes desníveis com montanhas a perder de vista. Em Manjarin o albergue tem aspecto descuidado com indicações curiosas das distâncias para outros locais do planeta.
Ao chegar perto daquilo que parecia um destacamento militar (ponto mais alto), onde estava uma base para helis, agasalhei-me para preparar-me para descer e voltei a comer uns pães com pepitas de chocolate tipo Panrico mas mais amarelo, hoje tem sido o meu sustento.
O que sobe, desce. Atenção, não é sempre por estrada porque não quero, à saída de Manjarin à esquerda existem uns trilhos que cortam literalmente a montanha e então é só trialeiras loucas até El Acebo. A vila vista aqui de cima é lindíssima, dá uma bela foto, pensei. Já à saída parei num monumento constituído por uma bicicleta toda em ferro em homenagem a um peregrino falecido. Também eu contribui com uma pequena pedra que coloquei no monte juntamente com todas as outras colocadas por peregrinos que ali vão passando. Abasteci de água na fonte mesmo de frente ao albergue em Riego de Ambrós ( dormida e desayuno 5.50€, com bom aspecto), nos dois últimos dias tenho abastecido com mais frequência devido ao sol que tem feito o favor de aparecer. Ainda bem que o tempo não está muito quente. Agora só um aparte, se em qualquer altura tivers dúvidas sobre qual o caminho a seguir, se vires o Sol. Segue-O. Ele vai para oeste. Tu também.
O que é isto? It´s a plane, it´s a bird. No, são os betetistas da Ciclonatur a alta velocidade e só disseram olá!!! Estes só querem usufruir dos trilhos que aqui existem, não estão a fazer estes caminhos para sentir o verdadeiro espírito do peregrino. Tudo tem o seu tempo. Qualquer dia, quem sabe faço tudo isto com apoio logístico não tendo necessidade de mochila nem alforges.
Até pequena vila de Campo é só trialeiras xistosas boas para rasgar pneus e empenar rodas. A minha roda traseira também não está a 100%, o empeno é já bem visível.
Em Molinaseca, vale a pena observar as suas varandas de madeira e ruas estreitas, o albergue está situado alguns metros mais adiante e aparenta boas condições. O caminho continua à direita a seguir a um court de ténis.
Entra-se em Ponferrada por longos caminhos de terra batida e alcatrão com pouca inclinação. O albergue está situado na parte baixa da cidade(?), muito perto do caminho que trazemos. Observa-se como pano de fundo uma paisagem verdejante parecendo uma moldura de um lindíssimo quadro. O albergue foi recentemente construído, tem quartos separados para 6 pessoas, o donativo depende da nossa generosidade, e uma cozinha com capacidade para se preparar muitas e boas refeições. Possui ainda máquinas de lavar e secar roupa. Para quê saber isso, perguntam vocês? Quando um dia ousarem percorrer o Caminho das Pessoas Comuns irão perceber a importância deste pormenor.
A cidade é grande para se visitar e tem uma enorme diversidade de ofertas para o peregrino e turista.
Ponferrada – Samos 07Set03
Distância - 90 km Média – 13 km/h Tempo pedalada – 9h00A hora de acordar é aquela hora fantástica que ninguém desconfia, mais ou menos 05h00(HE) o tempo para hoje parecia agradável e lá segui eu até Cacabelos por pisos de macadame pouco inclinados, a partir daí é uma enorme estrada de alcatrão até Km470, local onde se vê então a flecha amarela. Não há engano o Caminho passa por ali, e ter atenção que é sempre a subir durante alguns kms.
Já em Villafranca del Bierzo, não deixem de visitar a igreja de Santiago, a única além da Catedral que é capaz de dar as indulgências aos doentes e enfermos que não possam mais caminhar. Os 25 km fazem-se num ápice (1h45 Av. 14.5 km/h), a visitar ainda a igreja de S.Francisco que data do séc. XIII onde se pode ver um tecto em madeira talhada. Apesar de vila, é acolhedora e tem muito para se apreciar, neste momento estou a beber um café com leche numa esplanada do café Compostela bem pertinho da igreja S.Francisco. Até agora foi o melhor café turvo(deixa ver o preço), os pacotes de açúcar têm marcado o Caminho de Santiago e algumas fotos de monumentos e pontos de passagem. Se houver necessidade pode-se ficar albergado no edifício que ali existe para o efeito A partir daqui é que a porca torce o rabo, avizinha-se o Cebreiro lá no alto sem mais nenhum sitio para abastecer de géneros. Pelo menos é essa a informação que disponho.
Estes pequenos momentos de descontracção são especiais e importantes, pois é isto que torna a peregrinação em algo que não se consegue descrever. Vive-se. Apenas sei que hoje é Domingo porque todas as igrejas onde tenho passado estão abertas, houve alturas durante o percurso que não me lembrava nem do dia da semana nem do mês. As horas pareciam dias, os dias semanas e as semanas pareciam meses que nunca mais tinham um fim. Tudo o que fica são dias recheados de momentos que irão perpetuar eternamente no meu imaginário. Lembrem-se “ A vida é feita de momentos, mas é acima de tudo feita da forma como os vivemos”.
Parei estrategicamente em Las Herrerias( isto sou eu a pensar), já andei 50km e faltam 8 km para chegar ao topo mais temido de todos os peregrinos da antiguidade, O Cebreiro. Agora vou almoçar o queijo Veiga de Arte que comprei numa loja da estação de serviço em Valcaces. Esta loja estava bem apetrechada com produtos (vinhos, azeite chouriços, pão) do Bierzo - deve ser uma zona famosa-, apenas comprei o essencial para o almoço.
Segui pelo mesmo caminho que trazia até então, que era o alcatrão. Desviei ao km 407 para visitar Trabadelo. Desviava-me da nacional para visitar os pequenos povos que iam aparecendo e ao contrário daquilo que dizia há bocado, têm água, supermercados e albergues. O caminho segue por um vale profundo entre um rio e a estrada com montanhas abruptas de ambos os lados que nos permite quebrar a monotonia do preto do local onde pisamos.
Alô!!! Eu estou almoçar. Lembram-se? Aqui em Las Herrerias há um café de nome Polin e que servem juntamente com o café solo, uma aguardente caseira muito saborosa. Assim está bem, isto é melhor que a bebida oficial do Caminho.Visto-me a rigor para o tempo que se está a formar, muitas nuvens, humidade e nevoeiro é sinónimo de chuva. Esta carola parece um barómetro...Se por acaso não chover, melhor, mas lá no alto dos seus 1330 m de altitude de certeza que está frio. De acordo com as notas a seguir a esta povoação à 2 indicações: uma para o trilho a pé, outra para a bici. Agora confesso, com receio que o trilho fosse intransitável por qualquer razão, segui por estrada. O Cebreiro estava para os peregrinos, como o cabo das Tormentas estava para os portugueses no séc.XV.
A convicção de que nos devemos manter sempre fiéis aos nossos ideais martelava no meu cérebro sistematicamente a cada minuto que passava. A estrada andava às curvas para vencer o desnível acentuado, tinha a certeza que por ali era mais longe. Na primeira povoação avistei um grupo de peregrinos a pé e questionei-os sobre a dureza do trajecto até ali praticado. Disseram-me que para a bike era difícil, mesmo assim teimoso como um burro. Esperem lá!!! Não cheguei a contar a história do burro. No albergue de Ponferrada estava um casal de franceses com 2 filhos, um burro para transportar as mochilas e um cão. De manhã ao acordar estranhei ao ouvir um som que parecia um toque de alvorada -isto de ser militar dá cá uma pancada-, quando olhei sobre a janela, eis que observo o tal burro. Era ele que estava a zurrar. De volta à teimosia de burro, meto-me trilho a dentro juntamente com os outros peregrinos. Rapidamente passei do pedalar ao andar porque aquilo era a subir por pedras soltas e lages mas o terreno mesmo molhado era transitável. Foram muitos os Pais Nossos e Avé Maria que ecoei montanha acima, nesta altura o cansaço acumulado já se fazia sentir, havia que manter a mente e o espírito ocupado. Quando a cabeça quer, o corpo obedece. Antes de atingir o topo, matei a sede numa fonte de água gelada que brotava da montanha e passei por uma pedra que materializa a entrada na Galiza. Eis que observo a carrinha da Ciclonatur, interpelei a condutora perguntando por onde andavam os betetistas? A minha resposta apareceu 3 minutos depois. Falei com o senhor Malvar visivelmente cansado e ofegante questionando-me sobre quando tencionava acabar esta travessia. Respondi-lhe dia 9. Mas dia 9 é amanhã, disse. Ainda vacilei, pensando que então levaria mais tempo para chegar a Santiago de Compostela, mas confirmando com o relógio disse-lhe que hoje era Domingo dia 7. Coitado, faltava-lhe oxigénio no cérebro, deve ter sido do excesso de ácido láctico no sangue. Já recomposto, concordou e fiquei a saber que iria terminar no mesmo dia que eu.
O Cebreiro é um verdadeiro lugar comercial, que o digam todas aquelas barracas ambulantes a vender um pouco de tudo. Na igreja colocaram-me 3 selos na credencial mas foi uma sorte não ter de pagar. Eu explico, por um pequeno prospecto sobre a resenha histórica do local queriam cobrar-me 1€, as fotos são a 0.60 €, qualquer dia lembram-se, e pagam-se os cunhos.
A visão que tenho da paisagem envolvente devo-a aos postais ilustrados. O nevoeiro juntamente com o mau tempo não permitem apreciar as bonitas terras galegas. Sigo à risca “ não dormir no Cebreiro, porque de manhã há neblina”, já passava das 15h00 e aquilo estava assim, imagino de manhã.
O Caminho original passa junto do albergue (****), num sobe e desce constante até ao Alto do Poio (o pto cota mais alto, 1337m), felizmente os trilhos de macadame não obrigavam a grandes peripécias. Parecia os Pirinéus, não se via nada, só que desta vez era a descer. Uma estátua enorme de um peregrino semi-dobrado segurando o chapéu, demonstra bem as agruras do clima naquele local.
Daqui em diante alterna-se entre o alcatrão e a terra batida quando se entra nas povoações de Liñares e Hospital. Como a visibilidade era reduzida, nos troços de betuminoso circulava nas bermas com extrema precaução e vinha bem sinalizado com as capas dos alforges em amarelo vivo, mas mesmo assim não ganho para o susto quando um carro atrás de mim entra em despiste fazendo vários peões antes de se imobilizar. A sorte foi não virem carros em sentido contrário. Imagino o que sentem aqueles peregrinos que não se apercebem da minha chegada e mandam
grandes saltos ao ouvirem buen camino. Já repeti esta frase centenas de vezes(e mesmo assim não me canso de repeti-la), bem como ânimo, guten tag. É bom para elevar a moral das tropas.
Estou algum tempo na Galiza, os marcos nos trilhos indicando os Kms que faltam para Compostela não enganam. Não deixem os trilhos porque é por aí que se observa tudo o que a Galiza tem para dar: single tracks verdes luxuriantes, descidas vertiginosas até Tricastela, rios, macieiras, aldeias escondidas no espaço e no tempo onde o cheiro que paira no ar me dá nostalgia daquele tempo em que as histórias e conversas se faziam à fogueira.
Parei a meio de uma descida para fotografar a zona verde que se estendia à minha frente, ao olhar para trás vejo a neblina que envolvia apenas o topo da montanha. Encontro 2 italianos tão loucos quanto eu, ou seja, também tinham começado em S.Jean e vinham sempre por trilhos. As suas bikes eram modestas, uma estava sem travões e a outra sem suspensão, respondi a um deles que a próxima loja era só em Santiago. Coitado ficou desolado, tive de consola-lo dizendo que a listagem de notas era de um amigo meu e que já tinha encontrado erros. Mais tarde ao consultar um prospecto dado no Caminho constato que existia pelo menos mais 3 lojas de bikes. Fico feliz por eles.
Já em Tricastela tento descobrir um albergue, mas por azar estava tudo completo. Naquela altura já o cansaço tinha-se apoderado da minha mente, o frio do meu corpo e eu ia dormir em qualquer lado nem que fosse em algum albergue privado. Não havia hipóteses, a partir daqui tina 2 opções para seguir, ou ia por Samos ou por San XIL, optei pelo primeiro devido a ser o mais rápido. Meto-me à estrada, rolei, rolei e rolei, e não é que ia no Caminho original!!! Segui a indicação à direita para dentro de uma aldeia, e ainda bem que o fiz, porque os trilhos são muito verdejantes com enormes túneis formados pelas copas das árvores. Assim mesmo cansado dá gosto pedalar. Parei ao avistar uma manada de vacas leiteiras, disse à senhora que as conduzia “olá”. Ela reponde “ bom dia” num português correcto, esboçando um sorriso rasgado de orelha a orelha perante a minha cara de espanto. Aqui na Galiza fala-se galego e algumas expressões são iguais às nossas.
Fiquei albergado no enorme Monastério de Samos (não se pode comer, beber, fumar, etc), enfim de todos os visitados é o que oferece piores condições. A visita ao Monastério começava no outro dia às 10h00 e custava 2€, imediatamente pensei que de manhã não poderia ficar para visitá-lo.
Samos é pequeno e tem poucos restaurantes, tive a sorte de entrar num a cerca de 50 m do albergue e comer um bom churrasco como menu do peregrino.
Uma nota curiosa inscrita por cima das portas das I.S “ Cuidado virá outro”.
Samos - Melide 08Set03
Distância - 80 km Média – 12.7 km/h Tempo pedalada – 6h20Durante a noite o ronco começou cedo. Houve alguém que murmurou aquele som típico para se parar de ressonar e aí ninguém se conteve e foi a risada total, este é o inconveniente dos albergues com um grande espaço aberto.
Segui caminho por enormes bosques rasgados por trilhos com várias inclinações e pedras incrustadas no pavimento , assim continuou até Sarria (cidade com bastante movimento e bom lugar para pernoitar). Durante uma subida fiquei impressionado ao ver um casal de peregrinos em que o homem circulava de cadeira de rodas coadjuvado pela rapariga. Nestes caminhos existem pessoas com uma fé e força de vontade incríveis.
Entrei em Sarria, o caminho passa junto a um Mosteiro e segue entre muros junto ao cemitério sempre a descer até se chegar a uma ponte romana e mais adiante uma passagem de nível. É preciso ter atenção junto ao mosteiro para não haver enganos, eu segui o caminho certo por acaso, ou seja, só me apercebi do erro ao voltar para trás para carimbar a credencial com um grupo de peregrinos que vinha em sentido contrário e que ia começar ali a sua peregrinação. Estava a desanimar por aqueles bosques fora, já devia ser fraqueza e resolvi parar para deliciar-me com o belo queijo da zona do Bierzo . Vêem-se muitas macieiras prontas a saciar a fome ao peregrinos onde a maior parte das maçãs estão ao alcance de uma mão. As maçãs o que têm em dureza, têm em sabor.
A entrada em PortoMarin faz-se por uma ponte metálica, entrei numa panaderia ao cimo da subida para comprar pão e uma tarte de amêndoa típica de PortoMarin (Lupo) com a cruz de Santiago. Acabei por almoçar por ali e safar-me a uma boa dose de água que entretanto acabou por cair. Desta vez safei-me. Voltando um pouco atrás no tempo, em Samos existe um rio que parece acompanhar-nos até PortoMarin, é simplesmente deslumbrante ver o rio, as zonas verdes e o silêncio ensurdecedor apenas quebrado pelo som da músicas que vou cantando ( põe tua mão na mão do meu Senhor da Galileia). Atenção à saída de PortoMarin, ela é feita por uma ponte de ferro ficando o betetista do lado esquerdo do rio, após isso não há muito para contar, o alcatrão toma conta do Caminho de forma íngreme até Gonzar. A chuva não parava, só dei conta que passei por Palas De Rei quando vi a placa de fim de localidade, por isso é um lugar que passa despercebido. Eu bem colocava os óculos com as únicas lentes que levava, as de sol, é que com a velocidade atingida e com tanta chuva, magoava os olhos. Bem, e depois, devem saber como é!!! Fica tudo embaciado que é pior a emenda que o soneto.
Todo molhado e ensopado segui a receita do outro dia. Segui até Melide deixando para trás albergues com boas condições em zonas pouco conhecidas, por exemplo depois de Casanova tinha um excelente albergue gratuito com cozinha e máquinas, só não me apercebi da existência de supermercado.
Depois da alguma estradas a subir, eis que surge os trilhos que fazem da Galiza um local apetecível. Não tem explicação e não existem palavras para descrever o aparecer de pequenos aglomerados habitacionais com casas e ruas revestidas a pedra da região, no ar apenas o cheiro a lareira e a gado. O cruzamento com manadas de vacas é uma constante porque este é um meio de subsistência, quando perguntei se podia passar, recebi a seguinte resposta sábia e pertinente. ”Não sei senhor. São Vacas.”
A imagem dos marcos indicando a quilometragem que falta é um alívio para o espírito. A tarde chuvosa foi a pior até então, estava molhado até ao tutano.
O albergue em Melide tem 130 lugares, um estábulo para guardar bicicletas, cozinha e amplas zonas de lazer. A tarde mantinha-se húmida, a fila para lavar e secar roupa era de 7 pessoas à minha frente, logo tinha de esperar 7x45 min, obrigando-me a levantar perto das 02h00 da manhã. Então aqui o “Je”, prefere agarrar e à boa maneira do desenrasca com o sabão azul e branco toca a lavar e a rezar para o final de tarde se manter sem chover. Dito e feito, lavei a roupa, fui ao supermercado e ainda não choveu. Com tudo isto poupei 1€ no detergente, 2 € na máq. lavar roupa e 1.5€ na máq. secar , é só vantagens ser-se o mais desimpedido possível. Durante este troço do Caminho vi muitos peregrinos, especialmente alemães a fazer turismo.
Melide - Negreira 09Set03
Distância - 68 km Média – 12 km/h Tempo pedalada – 6h20
Ontem o grupo de betetistas já meu conhecido, foram simpáticos ao colocarem as roupas que estavam a secar na cadeira dentro da máquina. Pena que só lá estivesse as luvas e as perneiras, o resto estava debaixo do saco-cama embrulhado entre folhas de jornal. De manhã ainda vesti a camisola um bocado molhada ( com grande cheiro a humidade) e pendurei as meias na mochila para secarem durante o caminho. Estava frio, é sinal que o tempo da parte da tarde vai abrir. Santiago presenteou todos os peregrinos com um dia de sol maravilhoso.
Há medida que nos afastamos de Melide vamos deixando aos poucos os meios rurais, para começarmos a ver locais mais desenvolvidos como Arzúa (albergue só aceita ciclistas a partir 19h), onde voltei a ver mais grupos de peregrinos italianos, achei demasiados, mas a resposta estava num autocarro alguns kms mais à frente.
As subidas neste troço são penosas, cada uma é devorada lentamente, cada pedalada é sentida profundamente, mas a sensação de estarmos cada vez mais perto dá-nos a paciência que necessitamos para vencer tão pequena altitude. Mesmo a um pulo de Compostela, o Caminho não deixa de nos surpreender com trialeiras rasgando o arvoredo. É comum ver circuitos de manutenção e recintos para as populações locais praticarem desporto.
Monte do Gozo, isto parece o Parque das Nações com pavilhões por todo o lado. Tem capacidade para albergar 800 peregrinos servidos por inúmeras tiendas, lojas, cafeterias e zonas de lazer com música ao vivo, tudo isto situado num parque verde a 5 km de Catedral de Santiago. Isto é um mundo.
Cheguei perto das 13h00(HE) a Santiago, fui à oficina do peregrino onde estava instalada a confusão. Tenho pena de não ter chegado mais cedo, acontece que o 1º e único furo aconteceu a 25 km do destino, limitou-me o andamento. Era coisa pouca o furo, o pior foi quando enchi a câmara suplente, e esta nada. Verifiquei que tinha um grande rasgão, ocasionado possivelmente pelo contacto com as ferramentas e oscilações da btt. Valeu-me os remendos pré-colados que são uma maravilha, é só raspar e colar. Ao início estava com algum receio porque tinha a sensação de estar a perder pressão. Foi tudo uma ilusão óptica.
Voltando à Catedral, fui interpelado por 2 senhoras que perguntaram se queria alojamento. O que eu queria era ir-me embora dali. Acreditem que andar sozinho durante todos estes dias e passar por locais tão calmos e serenos que nos dá outra forma de pensar.
Na oficina do peregrino não me deram indicação como ir para Negreira, indicaram-me a oficina do Xacobeo junto de uma zona florestal, aí tinham a informação que necessitava, completada pelo horário dos autocarros para me trazerem de Finisterre.
O caminho até Negreira é duro. Tem íngremes subidas em alcatrão e os restantes trilhos são feitos por meio de eucaliptos com folhas, paus e muitas raízes.
O albergue é *****, pequeno em termos de lugares, mas bem equipado com tudo o que é essencial. Existe a possibilidade de se colocarem no chão colchões e assim ganharmos lugares extra. Ao jantar preparei metade de um pacote arroz com salsichas, o prato depois de confeccionado dava para 3 pessoas normais, eu ainda duvidei das minhas capacidades para comer tudo. Estava com sorte, juntou-se a fome com a vontade de comer.
Aqui conheci uma rapariga que saiu da Suíça no dia 22JUL03 e chegou hoje dia 09SET03 a Negreira. Tinha marcado no seu ciclómetro 2621 km! Desloquei-me ao exterior para apanhar a roupa e observei a bicicleta da rapariga, eu estava pasmado a olhar para aquela espécie de bólide quando ela apareceu e disse “ What do you think?”, eu respondi “ I think you have a good legs”
Negreira - Finisterre 10Set03
Distância - 80 km Média – 12.7 km/h Tempo pedalada – 5h23Que bom era cama onde dormi. O colchão era de molas e estava novo, eu é que acordei um bocado dorido. Olhei para a janela, não consegui perceber se aquela hora era chuva ou nevoeiro a mexer-se. Não há que enganar à saída do albergue, um pouco de estrada a subir para depois se entrar em trialeiras, com subidas de fazer um homem apear. A zona é húmida, nota-se as pedras e o terreno molhados o que torna a progressão um bocado lenta. Tive de andar alguns kms a pé.
Oliveiro, é uma pequena aglomeração de casa rurais, à saída encontramos uma subida acentuada de alcatrão que rapidamente passa a descer para se dar entrada em terra batida. Mais uma manifestação de vacas, o que se passa para estarem para aqui a cheirarem? Pensam que sou algum boi reprodutor, ou quê?
As paisagens começam a ter como ponto de fuga, o mar. Em determinada altura é sempre a descer por caminhos duríssimos (cheios de pedras soltas), até sentirmos o cheiro a maresia.
Atravessei CEE onde almocei junto a uma bonita fonte de frente para o oceano, depois, segui até cabo Fisterra “ El fin del mundo” como os galegos gostam de lhe chamar. A “ sempre a subir subida “é feita por alcatrão.
Fisterra é um bocado de terra que entra pelo mar dentro, tal e qual o cabo da Roca, o que aqui existe é o misticismo por ser o fim do Caminho Xacobeo. O albergue é bom, a cozinha até tem micro-ondas e tostadeira. Aqui passam a Finisterrae ( certificado de ter chegado a terras da Costa da Morte).
De Negreira até final do Caminho posso afirmar ser um misto de terra e estrada, mas em pior estado que os caminhos até Santiago.Regressei a Santiago de autocarro com a bici no porão para ir à missa do peregrino às 12h00(HE). De início era um bocado estranho, demasiados turistas a passear e a ver, mas assim que se iniciou a celebração o silêncio foi uma constante. A visita à urna do apóstolo é ponto obrigatório